Terça-feira, 28 Abril 2009...7:44 pm

Entrevista: Liliana Martins, treinadora-jogadora do I’R (Islândia)

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Liliana Martins ao serviço da selecção AA

Liliana Martins ao serviço da selecção AA

O Odivelas.wordpress.com esteve à conversa com a internacional portuguesa Liliana Martins, jogadora que este ano vai acumular a função de treinadora da equipa islandesa do I’R, com apenas 27 anos.

Aqui fica a entrevista a Liliana Martins, jogadora e treinadora do I’R e internacional AA por 33 vezes:

- Fala-nos um pouco do teu percurso antes de chegares à Islândia.
Estive no 1.º Dezembro durante sete anos. Depois, fui para o Vitória de Setúbal um ano, o que foi muito giro porque tínhamos uma equipa que eu comparo ao I’R, a equipa onde estou agora na Islândia. Uma equipa pequena, com ambições pequenas, mas que cresceu muito e tinha um grupo muito engraçado.

Tive muita pena quando a equipa acabou, quando o Setúbal ficou sem dinheiro.

Ainda hoje tenho amigas lá e tenho pena, porque houve muita gente que ficou sem equipa para jogar naquela zona. É triste. É que a equipa cresceu, subiu de divisão e depois desistiu, essencialmente porque não houve dinheiro.
Depois disso fui para o Huelva [Espanha] por dois anos. Também foi muito giro porque era uma equipa feita só com pessoas de fora, ninguém se conhecia. Podia ter saído uma grande porcaria, mas não, saiu um grupo muito giro. Também foi uma história parecida [à do Setúbal], nós começámos na I Divisão [equivalente à II Divisão portuguesa], subimos à Superliga [equivalente à I Divisão portuguesa] e mantivemos a equipa. Depois lá fui para a Islândia e agora é outra vez tentar subir, apesar de ser difícil.

- Quando te mudaste para a Islândia?
Fui em Maio de 2007, portanto vai fazer dois anos agora em Maio.

- E como é que chegaste lá?
Começou tudo através de contactos. Na altura eu estava em Espanha a jogar no Huelva com a Ana Rita, com a Joana e com a Rita Carneiro. Esta equipa da Islândia tinha acabado de subir de divisão assim um pouco por acidente, porque a equipa que era suposto subir tinha feito uma falcatrua qualquer com uma guarda-redes, acho que houve um engano na inscrição e foram penalizados por isso. Pronto, a equipa foi para cima e ficou um pouco aflita porque tinha um plantel fraco e precisava de reforços, porque, já que iam subir, queriam tentar manter-se. Então o treinador conhecia o pai da Sofia Grave – jogadora que também chegou a ir à selecção e que está na Dinamarca -, e ele, que está na Islândia, falou com a Sofia para saber se ela conhecia alguém que estivesse interessado em ir para lá. Ela falou connosco [Liliana e Ana Rita] e pronto, nós decidimos ir.

- Como tem corrido a experiência?
Tem sido giro, muito diferente. Tem pontos positivos e negativos, como tudo. A nível de futebol, muito positivo.

O campeonato islandês é muito melhor do que o português

e há equipas com mais qualidade do que muitas equipas espanholas. O campeonato tem um bom nível e boas jogadoras também. Mas é um campeonato mais pequeno, tem 10 equipas e decorre no Verão. As condições são óptimas, todos os clubes têm as infra-estruturas necessárias e campos sintéticos ou relvados – apesar de no Verão se jogar sempre nos relvados. A nível de deslocações não há muitas, porque as equipas são quase todas de Reiquejavique, excepto uma ou outra. Devido ao clima não se usam autocarros, por isso quando é preciso vamos de carro ou mesmo de avião. Como o limite de velocidade é 90 km/h, se fossemos de autocarro demorávamos uma eternidade… E é perigoso, porque o tempo às vezes é agreste.

- Muitas vantagens então?
Sim. Futebol feminino, desporto… todos fazem. As meninas de 6,7 anos vão para os treinos de mochila e chuteiras às costas. Os clubes são clubes de bairro e aquilo é tudo muito giro – e eles têm os escalões todos lá. O bairro tem o clube, a escola, o centro de saúde… muita qualidade de vida. Eu quando jogava cá [em Portugal] vinha de Torres Vedras para Sintra, não há comparação. Mas também há desvantagens, claro.

Acho que as pessoas em Portugal têm muito mais amor ao futebol.

Eles lá [na Islândia] estão habituados a ter tudo e quando se tem tudo fica-se mimado, não se dá valor às coisas.

- Só começaste a treinar o I’R este ano?
Sim, só este ano. Quando cheguei à equipa tinha uma pequena fissura no perónio que estava praticamente ultrapassada, só que logo no primeiro treino… lesionei-me no joelho. (risos) Fui operada lá e eles foram impecáveis, porque não me mandaram embora, algo que aconteceria noutros sítios, por exemplo em Espanha. Ali não, foi tudo cumprido e trataram de mim, apesar de eu só ter jogado no final da época. Apesar de a equipa se ter reforçado bem, descemos de divisão.

- Mas decidiste continuar na equipa à mesma?
Nós só estávamos lá há uns meses mas estávamos a gostar, tínhamos trabalho, qualidade de vida… estava a correr bem. Por isso decidimos ficar mais uma época para puxar a equipa para cima. O inverno foi difícil, nunca tínhamos estado lá nessa altura. No verão trazem sempre mais estrangeiras para vir jogar porque o campeonato decorre até Setembro. Depois até Dezembro há uma paragem e em Janeiro/Fevereiro começa a Taça Reiquejavique. Lá para Março/Abril há a Taça Islândia e em Maio começa o campeonato propriamente dito. Este ano ainda não sei bem como vai ser porque a Islândia não está muito bem em termos económicos, mas vamos ver.

Liliana Martins ao seriço do Huelva (Espanha)

Liliana Martins ao serviço do Huelva (Espanha)

- Porque é que não foste convocada para o Mundialito, tendo em conta que normalmente costumas ser?
Não fui convocada por opção.

- Quando foste convocada pela última vez?
Em Setembro, quando jogámos com a Ucrânia. Entrei, joguei uns 10 minutos, ficou 1-1. Entrei como médio esquerdo, é a posição que costumo fazer, mas também sou lateral esquerdo, quando necessário.

- Por que razão não regressaste à selecção após esse jogo então?
É como digo, por opção. Nos estágios de observação, como são só 3 dias, não nos costumam chamar por estarmos mais longe. Depois, para o Mundialito, não sei…

- Estavas à espera de ser convocada?
Estava à espera de ser convocada porque a pré-convocatória foi enviada para a Islândia. Portanto, a partir daí, quando é enviada a pré-convocatória… Mas pronto, foi a opção e temos de nos “aguentar à bronca”, não é?

Fiquei triste por não ir ao Mundialito, mas opções são opções.

- Então esperas voltar a ser convocada?
Sim, sim, espero que sim.  Só tenho de continuar a trabalhar, jogar e divertir-me. Mostrar que estamos cá. Isto de ser opção ou não depende de muitas coisas. Já jogo há 10 anos e cada treinador tem a sua opinião, por isso às vezes temos sorte, às vezes não.

- Gostaste da prestação da selecção no Mundialito deste ano?
Para ser sincera, não vi nenhum jogo. (risos) Não tive mesmo tempo, estava cá em Portugal com uma data de coisas para fazer, a tentar observar jogadoras e não consegui ver. Mas pelo que percebi – e pelos resultados, claro, acho que foi muito bom.

- Vais levar jogadoras portuguesas para a Islândia?
Andei a observar, vamos ver. Por enquanto, só ando a observar, mas mais fora daqui. Apareceram algumas pessoas interessadas em ir mas não sei até que ponto haverá condições para o conseguir.

- Tendo em conta as tuas experiências em Espanha e na Islândia, o que te parece ser preciso para que o futebol feminino português evolua?

Formação. Formação acima de tudo!

- Mais importante que a reformulação nos quadros competitivos que vamos ter para a próxima época, portanto?
Acho que sim. Tem de haver formação. Tem de se começar a fazer isso nos clubes. É difícil porque os clubes não estão perto, há poucos clubes com futebol feminino. Tudo bem que as miúdas podem começar com os rapazes, mas depois a certa altura já não se pode e há um intervalo – acho que é dos 14 aos 16 anos – em que não têm equipas para jogar. Tem de haver mais incentivos nesse sentido e mais pessoas a mexerem-se. E acho que devia ser como lá na Islândia, em que cada cantinho há um clube onde podes pôr o teu miúdo. Depois também tem de haver formação das próprias pessoas que estão nos clubes. Acho que tem de começar por aí e evoluir devagarinho.

Nós temos selecção sub-19 mas não temos mais nenhum escalão, é complicado… É complicado andar para a frente assim.

Às vezes andamos um bocadinho mas a todo o momento parece que pode acontecer qualquer coisa que estrague.

- Acompanhas o campeonato português?
Muito pouco, muito pouco.

- Bom, também não costuma haver grande dúvida sobre quem será o campeão…
(risos) Sim, realmente é verdade. É pena. Mas acho que para o ano vai ser melhor.

Acho que a reformulação é uma boa medida.

Mas pronto, não sei se será suficiente para as coisas evoluírem. Não sei, é complicado só com isso. A nível de campeonato acho que vai ser bom, mas a nível de futuro, de selecção, não sei.

- Já apanhaste vários ciclos da selecção…
Sim, Nuno Cristovão, José Augusto e Mónica Jorge.

- E que achaste do comando de cada um deles?

O Nuno Cristovão foi uma lufada de ar fresco para o futebol feminino

porque mudou muita coisa, mostrou muito trabalho, mas depois…

- Achas que se estava a evoluir e depois se retrocedeu com a liderança do José Augusto?
Acho, claro que sim. O Nuno Cristovão trouxe muitas coisas boas ao futebol feminino e mostrou muito trabalho e muito empenho. E acho que merecia outro desfecho, não o que teve. Ainda por cima numa altura em que ele conseguiu fechar um ciclo muito bom, em que no Mundialito tivemos um lugar igual ao deste ano. Fez-se uma equipa muito boa que culminou num bom Mundialito e pronto, depois ele saiu daquela forma, mas deixou muito trabalho construído.
Com o José Augusto… Com todo o respeito que tenho pela carreira dele, pelo jogador que foi, não foi um bom seleccionador. Foi realmente andar para trás, foi muito vazio… foi estranho. Deixou de haver a organização que havia, perdeu-se o trabalho todo que tinha sido feito até então e pronto, os resultados demonstram isso mesmo.

- E agora, melhorámos novamente?

Penso que a Mónica tem estado a fazer um bom trabalho,

no último Mundialito e neste… Nas qualificações é que não tem sido tão bom. Mas tem sido bom e espero que assim continue.

- Estás preparada para a nova experiência, ser treinadora?
Vamos ver. Eu penso que sim. Gosto de começar por uma equipa pequena e fazê-la crescer, vamos ver se temos condições para isso. Comecei há muito pouco tempo, por isso ainda temos de ver como corre. O tempo dirá!

[Obrigada, Liliana.]

6 Comentários

  • Realmente a realidade do nosso futebol ainda esta mt atrasada, como vai dizendo a Liliana… enfim, esperemos que mude pq temos jogadoras (e, pelos vistos, treinadoras!) com qualidades para isso.
    Parabéns pela entrevista mt interessante e felicidades para ti, Liliana

  • Tive o prazer de privar com a Liliana durante bastantes anos a nível futebolístico (SU 1.º Dezembro) e continuo a fazê-lo a nível pessoal.
    É um exemplo a seguir. S
    empre determinada em analisar o que a rodeia e trabalhar para o melhorar.
    Correcta e amiga do amigo, merece o melhor, sempre.
    Espero que este novo desafia se transforme num sucesso, tal como todo o seu percurso até agora.

    Faço votos para que vejamos o seu nome na próxima convocatória da Selecção pq, pé esquerdo como o da Li, há mt mt mt poucos….

    Força!!!

  • Oi, achei muito legal esse post, bem bacana o teu blog!

    Vou adicionar aqui nos meus favoritos ;)

    Até mais,

    Paulinha

  • Liliana Martins is good player, this blog is special. Salam manis dari Indonesia.

  • A Liliana coloca o “dedo na ferida” nos diversos assuntos abordados na entrevista.
    Acredito sinceramente que este seu novo desafio vai correr bem e será um sucesso.
    Boa sorte, “Tijolos” e muita força!

  • A Liliana tucou em pontos fundamentais, que espero que mudem. Espero que corra tudo bem tanto como treinadora como jogadora, ela merese. felicidades -)


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